Se estiver com preguiça, lê só o parágrafo seguinte e os dois últimos. Fica a dica.
Desde que eu falei no Minuto Saúde da rádio da universidade ano passado (eu estava entediada na farmácia, para variar, e aceitei gravar), pensei em escrever sobre determinados assuntos relacionados à saúde (mais especificamente à Farmácia). Para começar, uma das realidades que mais me assusta: o desespero para emagrecer e as consequências dele. Algumas definições para simplificar as coisas:
- Anorexígenos: são medicamentos que têm a função de diminuir o apetite. Os mais conhecidos são anfepramona (ou dietilpropiona), femproporex e mazindol (esses três derivados de anfetamina).
- Sibutramina: medicamento que age inibindo a recaptação da serotonina, aumentando sua disponibilidade a nível cerebral. Sua principal diferença em relação aos anorexígenos citados acima é que ela não induz a produção da serotonina (apenas inibe sua recaptação), agindo por um mecanismo de ação mais seguro, porém longe de estar isento de efeitos adversos. Aliás,
nenhum medicamento é isento de potenciais efeitos adversos. Esqueci de falar, também atua como antidepressivo (por inibir a recaptação da serotonina).
- Ansiolíticos: medicamentos utilizados para diminuir a ansiedade. A classe mais famosa é a dos benzodiazepínicos (diazepam, bromazepam, etc).
- Laxantes: são divididos em várias classes dependendo do mecanismo de ação. Hoje só vou falar dos irritantes ou estimulantes. Os laxantes pertencentes a essa classe agem nas terminações nervosas do intestino e, se usados por muito tempo, podem lesar essas terminações e causar dificuldade de movimentação própria do intestino. Exemplos: sene, cáscara sagrada, fenolftaleína (proibido pela Anvisa, mas fazia parte da composição de alguns laxantes famosos), ruibarbo.
- Diuréticos: também são divididos em classes de acordo com o mecanismo. Em geral, atuam aumentando o volume de urina, diminuindo os níveis de água e cloreto de sódio sanguíneos. Utilizados no tratamento de hipertensão arterial, insuficiência renal e cardíaca ou cirrose hepática. Exemplos: furosemida, hidroclorotiazida.
Anorexígenos, ansiolíticos e antidepressivos (além de outros) são substâncias sujeitas a controle especial (mais informações
aqui). A
Portaria 344/98 da ANVISA regula a prescrição e dispensação dessas substâncias. Como o Brasil é um dos países com maior consumo (indevido na maioria dos casos) de anorexígenos, em 2007 foi criada a
RDC 58 com a intenção de controlar um pouco a situação. Na RDC 58 há uma dose máxima diária para anfepramona, femproporex, fentermina e mazindol, além de trazer um ponto importantíssimo na minha opinião:
“Fica vedada a prescrição, a dispensação e o aviamento de fórmulas de dois ou mais medicamentos, seja em preparação separada ou em uma mesma preparação, com finalidade exclusiva de tratamento da obesidade, que contenham substâncias psicotrópicas anorexígenas associadas entre si ou com as seguintes substâncias: ansiolíticas, antidepressivas, diuréticas, hormônios ou extratos hormonais e laxantes.”
Agora me pergunta onde isso é respeitado e eu respondo que não sei, pois NUNCA vi uma prescrição isolada de anorexígeno (só de sibutramina). Os anorexígenos provocam uma estimulação do sistema nervoso central, tendo como principais efeitos adversos agitação psicomotora, constipação intestinal, dor de cabeça, boca ressecada, aceleração da freqüência cardíaca, palpitações, constipação, enjôo, dor abdominal, diminuição da libido, dificuldade de urinar, depressão e podem causar dependência. Sinceramente, a maioria das pessoas que eu conheço que usam esses fármacos não tem IMC (índice de massa corpórea) alto o suficiente para que se possam ser considerados indivíduos obesos. Pelo efeitos adversos, além dos anorexígenos as pessoas geralmente tomam junto um ansiolítico (porque a agitação que eles dão é muito forte), um ou mais laxantes (leu sobre a constipação ali?) e um diurético (leu também?). Ou seja, se entopem de medicamentos potencialmente perigosos sem necessidade real. Isso quando não associam dois anorexígenos (femproporex e anfepramona), sibutramina, ansiolítico, antidepressivo, laxante e diurético. Eu já vi isso com uma pessoa conhecida e me assustei. E, gente, são pessoas que conseguiriam reduzir o peso com dieta e exercícios (e um pouco de vergonha na cara e amor próprio).
Não tenho a intenção de julgar ninguém, isso é só para pedir que as pessoas (médicos, farmacêuticos e pacientes) pensem um pouco sobre o que estão fazendo com a própria saúde e com a saúde dos outros. Também foi para exemplificar um ponto do post passado. Tentei resumir, tinha muito mais para escrever, mas ficou grande mesmo assim. Espero ter passado a mensagem.
17 Apr 2009 ~ O que eu aprendi no estágio (e não vai constar no relatório final)
Falando mais do que deveria, Faculdade
Antes de começar o estágio final que eu terminei esse mês, eu tinha aquela ideia de que iria aprender muito no estágio, que seria ótimo e que, apesar da escravidão, valeria a pena pelo aprendizado. Essa minha história de estágio final já me incomodou um monte. Resumindo, não consegui o que eu queria, acabei numa indústria de cosméticos onde não queria estar e fui para a farmácia de manipulação do mesmo dono da indústria. Digamos que eu fiquei feliz porque teria emprego. Apesar de eu não gostar da área, teria emprego e poderia fazer outra faculdade (que eu ainda nem sei se vou fazer, assunto pra outro post). Posso dizer que de conhecimentos técnicos eu não aprendi muita coisa, só nas primeiras duas semanas e nem foi muito, mesmo porque eu só tinha uma farmacêutica comigo no primeiro mês, depois eu que tinha que ensinar para os outros (piada, né?) e chamar o farmacêutico (que raramente estava na farmácia) caso tivesse alguma dúvida técnica. Ligava um cliente querendo falar com a farmacêutica, se o farmacêutico ou a mulher dele (também farmacêutica, para quem eu desisti de perguntar qualquer coisa técnica depois da terceira vez que eu fiz uma pergunta e ela respondeu com um "ai, Aline, faz uma pergunta mais fácil") não estavam, passavam pra mim. Mesma coisa se um médico ligava. Desde o segundo mês do estágio, estou trabalhando como farmacêutica e ganhando como... hum, escrava, porque não é nem um salário mínimo. Legal, né? Vocês não imaginam como.
Isso tudo é para chegar ao meu rico aprendizado adquirido. Vejamos...
- Se você é mulher e tem um pouco de vaidade, a manipulação a aniquilará. Os seguintes itens são proibidos: brincos, anéis, pulseiras, relógios, maquiagem, perfumes, sapatos abertos, unhas compridas, esmaltes. O que é obrigatório: calça comprida, sapatos fechados sem salto, cabelo preso bem enfiado na touca, propé, máscara, jaleco, luvas. Concordo que é questão de higiene e nem me incomodo com certos itens por já estar acostumada à época da faculdade, porém algumas coisas me deprimem. Gosto de poder de vez em quando passar um corretivo, rímel, lápis e/ou gloss. É triste acordar com cara de defunto e saber que você vai continuar assim o dia inteiro porque não pode nem disfarçar. Amo perfumes e é deprimente não poder usar. Mesmo assim uso um body splash pra me alegrar pelo menos um pouquinho. Brincos, tenho três em cada orelha, só tiro um, os outros ficam enfiados na touca. Anel quase nem uso mais. O maior drama: os esmaltes. Na primeira semana eu quis ser certinha e fui sem esmalte. Resultado: desde lá tenho duas unhas que insistem em descamar nas pontas, tudo pelo talco da luva, e preciso entupir minhas mãos de creme para ficarem macias. Agora uso esmalte clarinho (que também seria proibido pelas boas práticas, mas à merda as boas práticas, eu uso luva o tempo todo e sei que não vou contaminar nada por isso), mas morro de saudades dos vermelhos. Sem falar no uniforme que me deixa horrivelmente pálida (lembre-se que não pode melhorar a situação com blush). Triste, muito triste.
- A maior merda é você ter um problema nas mãos e não poder fazer o necessário para resolver (porque o chefe considera desnecessário) e todos ficarem cobrando de você a solução.
- Fofoqueiros puxa-saco, morram!
- Desculpem pelo modo de falar, não é meu normal, porém é o único jeito para expressar isso: as pessoas fodem com a sua saúde. Alguns médicos fodem com a saúde das pessoas.
- Tentei entender por que alguns donos deixam pessoas que espantam todas as outras numa determinada função e não tomam nenhuma atitude mais séria. Pensei que tinha entendido, mas não entendi.
- Ácido tioglicólico fede (cheiro de peido). Papaína fede (carne podre, na minha opinião). LCD fede. Valeriana fede (cocô de elefante). Adapaleno voa para as paredes quando é pesado e demora um ano para incorporar em gel. Cânfora, mentol e formol intoxicam. Tem mais coisa que fede/intoxica/queima que eu esqueci agora.
- Não experimente terbinafina em solução oral. Se tiver que experimentar, faça mais gente experimentar com você para todos sofrerem juntos, inclusive o chefe, afinal ele também precisa aprovar (foi o que eu fiz).
- Um laboratório sem exaustão correta fará com que todos fiquem chapados quando alguém precisar usar éter e/ou clorofórmio.
- Você pode precisar se fazer de encanadora porque o encanador de verdade não aparece quando precisa. Se você não tem sucesso (o meu caso), precisa torcer panos de chão de tempos em tempos. Ainda não tenho certeza de quando o tal encanador foi chamado (se realmente foi). O estagiário meteu a mão na massa e consertou, ainda bem.
- Conte até dez quando a atendente falar que o gel esfoliante da Natura é melhor que o que foi desenvolvido em, sei lá, três dias pela farmacêutica que saiu e falar pra você fazer um igual ao da Natura.
Tem outras coisas que eu esqueci, mas já chega porque isso ficou gigante.
21 Mar 2009 ~ Pouco sobre as pessoas
Falando mais do que deveria, Divagando
Sabe quando existe alguém que nunca fez nada de mau para você, mas você não vai com a cara e pronto? Respeita porque precisa respeitar (e porque tem juízo), mas sabe que quando não tiver mais que conviver com a pessoa vai ser um alívio, simplesmente porque você não confia nela, não a admira. Por outro lado, existe outra pessoa que tem a fama de ser grossa e incomodar os outros nesse sentido, mas você sente uma simpatia por ela, mais do que pela suposta educada citada anteriormente. Vai entender!
Se tem uma coisa que me irrita e me faz perder a admiração por uma pessoa é ela não assumir os próprios erros. Não precisa se humilhar para admitir que errou, só simplesmente assumir. Se é você quem manda, assumir um erro não vai fazer você perder o respeito dos outros, pelo contrário, eles vão perder o respeito que tem por você justamente se eles tiverem certeza que o erro foi seu e você fugiu da responsabilidade. É fácil demais colocar a culpa em qualquer outra pessoa, já que o que você faz bem mesmo é servir de enfeite. Esse papel, que é necessário também em determinada situação, é desempenhado com poder, elegância e excelência. Muito bem executado, nessa parte eu admiro mesmo.
Às vezes eu sinto que tenho uma paciência gigante, mas certas atitudes (ou a falta delas) me fazem perder totalmente a confiança porque eu sei que quando for necessário vai ser no meu que a culpa vai ser colocada. E eu? Até certo ponto vou ser obrigada a aceitar, infelizmente. Até certo ponto, mesmo porque, apesar de muitos pensarem o contrário, não sou uma máquina isenta de emoções.
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